movimento_natura.blog

entrevista: Luiz Seabra

Posted on: janeiro 2, 2007

A VIDA É BELA

“Apaixonado pelo ser humano e por sua capacidade infinita de gerar instrumentos para construir a felicidade, inclusive através da cosmética, Luiz Seabra, o fundador da Natura, revela como vê o mundo e a beleza, que, para ele, não é só aspiração do corpo, mas do espírito. _POR PAULO LIMA

Revista Natura: Gostaria que você falasse sobre prazer no trabalho. A relação entre satisfação, diversão e êxito. Essas coisas caminham juntas?
Luiz Seabra
: Nem sempre elas estão juntas. Durante um bom tempo em minha vida (comecei a trabalhar aos 15 anos), o trabalho não me proporcionava prazer não… Freqüentemente era um sacrifício, lembrando um pouco a origem latina da palavra tripallium, que era um instrumento de tortura da Idade Média… Em geral, o ambiente profissional era tenso, muito competitivo, às vezes, pouco humano, quase cruel. Além disso, eu morava muito distante dos locais de trabalho, estudava à noite, o transporte público já era muito ruim… No entanto, as condições adversas não me impediram de construir uma carreira vitoriosa até meus 25 anos, quando, deixando uma empresa multinacional, fui trabalhar em um pequeno laboratório de cosméticos…

RN: Aí a coisa mudou?
LS:
Começou a mudar, sim. Embora formalmente meu emprego tivesse menor expressão que o anterior, foi naquela pequena empresa que eu comecei a viver uma profunda transformação, na cabeça e no coração, a partir de algo totalmente inesperado: apaixonei-me pela cosmética. Digo inesperado porque minha função era de Gerente Administrativo da empresa. No entanto, pouco a pouco, lidando com fórmulas, fornecedores, matérias-primas, fui me enevolvendo com aquele universo, avaliando todo o mercado e acreditando perceber a possibilidade de uma nova linguagem. Chegou assim, de mansinho, sem avisar, uma mudança em meu olhar, em meus sentimentos que trouxeram um prazer inesgotável para o meu trabalho… Mesmo trabalhando duro, desde então, sempre trabalhei com muito prazer. E, sempre que possível, me divertindo.

RN: Falando um pouco do universo da beleza e da cosmética… parece que hoje há quase uma doença coletiva. As pessoas imaginam depender, exclusivamente, da aparência para obter algum grau de felicidade. Queria, então, saber sua opinião sobre essa exacerbação da vaidade, quase um problema de saúde pública.
LS:
Há, sim, muita gente infeliz, em uma busca insaciável para corresponder a certos padrões de beleza. As mulheres são particularmente pressionadas para que correspondam às noções estereotipadas de beleza impostas por instrumentos poderosos, como a mídia. Essa busca afasta a mente da pessoa do próprio corpo, buscando uma imagem inalcançável de si mesma. Isso acaba por se transformar em um demolidor da auto-estima. E sem auto-estima, sem um “se gostar”, há um esvaziamento da vida, um desamor que afasta o amor. Acredito que uma das razões para esse estado de coisas, para o narcisismo que freqüentemente ilha as pessoas, é a falta de uma vida espiritual realmente rica. Isso não

“Precisamos de música, de poesia, de múltiplas expressões da arte, tanto quanto de nossos potes de cremes, nossos shampoos e batons.”

torna a busca da beleza menos importante. Pelo contrário. Acredito que essa busca é fundamental e não deve se restringir ao corpo. Devemos, sim, buscar todos os recursos ao nosso alcance para cultivar a beleza em nossa vida como um todo, incluindo nossa alma. A partir de uma maior intimidade com o nosso corpo, buscando sua saúde e bem-estar – sua melhor forma, dentro de nossas características. Ao mesmo tempo, buscando tudo o que possa nos inspirar, nos emocionar, nos tocar o coração. Porque é a totalidade do ser humano que aspira à beleza. Precisamos de música, de poesia, de múltiplas expressões da arte, tanto quanto de nossos potes de cremes, nossos shampoos e batons.

RN: Como você trabalha a sua espiritualidade?
LS:
Para mim, espiritualidade é fruto de uma vida interior rica, de uma capacidade de recolhimento, de reflexão. Independente da religião que se tenha, espiritualidade é também fruto de muito contato com a natureza. Observar atentamente os ciclos da vida, por exemplo, as cores do outono, a forma da luz incidir sobre as folhas quando chega o inverno, certos

“Para encontrar a felicidade, não bastam pensamentos positivos. O fundamental é cultivar, sempre, sentimentos positivos.”

tipos de horizonte que surgem em determinadas manhãs, o céu estrelado, as várias faces da lua, os ruídos da mata, os grilos na grama, a inesgotável coleção de cores que as flores oferecem, os espetáculos do sol… Enfim, viver é um fenômeno muito mais amplo, profundo, significativo, do que uma visão superficial do cotidiano, tão cheio de banalidades e notícias ruins, permite perceber. Então, no meu entendimento, espiritualidade é o que quer dizer religião: estar “religado” com tudo o que há de belo e também com o que é invisível, mas que pode ser percebido, ser sentido, e nos faz transcender ao materialismo predominante.

RN: Com sua experiência, colhida ao longo dos anos, o que você considera fundamental para alcançar a felicidade?
LS:
Quanto mais eu sinto a presença da felicidade em minha vida, mas difícil se torna a descrição do que a constitui, dos caminhos que nos podem conduzir a ela… A própria noção do que possa ser a felicidade é essencialmente subjetiva. Mas, de tudo o que eu pesquisei, uma proposta me vem à lembrança. É a regra fundamental de Teilhard de Chardin para o encontro da verdadeira felicidade. Ele nos dizia que a felicidade verdadeira representa uma ação de crescimento, com uma base definida: primeiro, pela união de nossa consciênncia com o nosso interior, com nossa essência mais profunda, o encontro com a gente mesmo; depois, pela união do nosso ser com todos os que nos cercam; finalmente, pela subordinação de nossa vida a uma vida mais ampla, uma causa, um significado, maor que a nossa própria vida. Acho que esta “fórmula” de Teilhard de Chardin, entre outros méritos, nos lembra do quanto o outro é fundamental em nossa vida e do quanto os modelos centrados no egoísmo nos afastam do sentimento de plenitude que pode ser a base da felicidade. Enfim, para encontrar a felicidade, não bastam pensamentos positivos. O fundamental é cultivar, sempre, sentimentos positivos.

RN: O que é para você, uma mulher bonita de verdade?
LS:
Primeiro, é importante ressaltar que, com a criação da Mulher Bonita de Verdade, não pretendíamos criar mais um rótulo, em meio a tantos que, há séculos, atingem as mulheres. Na medida do possível, a intensão é justamente libertá-las de alguns. Deixe-me contar a história desde o princípio. Quando descobri “minha paixão pela cosmética” passei a pesquisar tudo que havia ao meu alcance sobre o assunto. Confesso que fiquei chocado com um creme, famoso naquela época, cujo nome sugeria às mulheres uma aparência eterna de 27 anos… Na realidade, de forma direta ou indireta, a maioria dos produtos de tratamento tinha, ou tem, um tipo semelhante de apelo. Refletindo sobre as razões que levariam a maior parte da indústria cosmética à mentira e à manipulação abusiva da mente feminina, pareceu-me evidente que, por parte das consumidoras havia também, talvez inconsciente, uma atitude do tipo “me engana que eu gosto”. No fundo, o que se trata é da antiga e tão conhecida ansiedade provoada pela consciência de que somos transitórios, e que os sinais de envelhecimento tão bem representam. Por isso, desde os gregos clássicos, há como que

“Grande parte das mulheres realmente bonitas que conheci e conheço não tem o rosto sem rugas. São mulheres que amam estar vivas e habitar seus corpos.”

uma obsessão pela juventude, que só fez crescer com o fenômeno da sociedade de consumo, com o glamour explosivo de imagens ideais, produzidas para despertar o desejo e vender objetos. Dessa forma, resumindo um tema que é muito complexo, muita gente é induzida ao consumo, levada pela ilusão, não consciente, de “dar um tempo no tempo”… A coisa até que não seria tão grave se ficasse só nisso. O problema é que, quanto mais discriminarmos o envelhecimento, mais sofreremos com ele quando lá chegarmos. E esse preço é imenso, especialmente porque a vida está se prolongando… Idealmente, deveríamos ir descobrindo a beleza de cada fase da vida, assim como a beleza de cada estação do ano, tendo para cada uma a titude adequada, nos protegendo e nos cuidando à medida que o tempo fosse esfriando, som contudo, eliminarmos o prazer de viver, a alegria de ser quem e como se é. Isso é não nos deixar subjugar pelo medo da passagem do tempo. É ter a coragem de assumir nossa condição humana como ela é, saber viver nosso amor à vida. Estas reflexões representam o fundamento do que considero ser a Mulher Bonita de Verdade e foram se desenvolvendo desde o tempo em que eu atendia nossas clientes na Rua Oscar Freire, em São Paulo. Percebi que poderíamos não apenas homenagear, mas também contribuir para a conscientização, para a auto-estima e para uma grande transformação na forma de olhar e sentir o próprio corpo de um enorme contingente de mulheres, tendo em mente a imagem da Mulher Bonita de Verdade. Mulheres que lutam contra a alienação, Mulheres vivas para o momento presente , gratas pela vida que há no agora. Mulheres que valorizam sua história de vida, com suas dores e risos. Que se cuidam, evitam os sinais do tempo, para estarem e se sentirem bem. Sem que os sinais do tempo que eventualmente existam as desestruturem. Afinal, são as marcas de uma vida que se ama e que ama a vida que há no mundo. Grande parte das mulheres realmente bonitas que conheci e conheço não tem o rosto sem rugas. São mulheres que amam estar vivas e habitar seus corpos. Que percebem que muitos dons da vida, como a sensualidade, melhor se manifestam quando se é autêntica. Que buscam ser e estar o melhor possível, e isso só é possível quando se é verdadeira. Enfim, olhando para a grande aventura humana, ontem, hoje e amanhã, percebemos que algumas pessoas alcançam uma certa luz própria, uma “arte de viver”. Para nós, as Mulheres Bonitas de Verdade têm essa luz, exercem essa arte.

>> Esta entrevista foi publicada na Revista Natura ciclo 11/2006. Revista Natura é uma publicação Natura Cosméticos S.A. editada e produzida pela Trip Editora e Propaganda S.A.

Anúncios

1 Response to "entrevista: Luiz Seabra"

O comportamento do sábio é a simplicidade que vem do seu espiríto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

este blog está abandonado por conta do intenso trabalho em meus outros blogs:

www.blogconsultoria.natura.net

www.eupossocuidardemim.com.br


blog stats

  • 330,639 acessos

aqui, acolá

RSS feed dos posts meu Technorati profile del.icio.us bookmarks
View Luciana Soldi Bullara's profile on LinkedIn

movimentos…

Add to Technorati Favorites Adicionar aos Favoritos BlogBlogs

del.icio.us

na gaveta

flickr photos


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
janeiro 2007
S T Q Q S S D
    fev »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  
%d blogueiros gostam disto: